A Torre Acima do Véu (Roberta Spindler)

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Autor: Roberta Spindler

Ano: 2014

Resenha: Roberta Spindler também é coautora da série de fantasia Contos de Meigan, uma que eu gostei muito, muito, e fiquei orgulhosa de ser conterrânea das autoras ❤ (minhas observações sobre o primeiro livro dessa série pode ser encontrada no skoob) Assim, com essa expectativa de já ter lido algo dela, comecei a ler seu novo romance, A Torre Acima do Véu.

A Torre Acima do Véu se passa em um universo em que as cidades entre Rio de Janeiro e Buenos Aires foram tomadas por uma névoa venenosa, obrigando os cidadãos dessas cidades a morarem em megaedifícios de mais de 300 andares, que formam a megacidade Rio-Aires. O maior e principal megaedifício é a Torre de Comando, onde o mora o Presidente Emir, um jovem que herdou o título do pai, que foi o idealizador da Torre. Ao redor da Torre, os edifícios são divididos por setores, sendo 1 a de pessoas que vivem com maior conforto e segurança e a 4 a de pessoas que vivem menos. (Você pode entender melhor como funciona essa história de Zona visitando o blog da autora, ela explica de maneira muito legal e ainda tem um MAPA *-*-* que totalmente deveria ter ido pro livro)

Enfim, a personagem principal da história é Beca, uma adolescente, que cresceu como um tipo de “caçadora de recompensas”, que trabalha com o pai e o irmão, Edu. Eles arrumam coisas valiosas da era de Antes do Véu e as vendem ou trocam no mercado negro. Um dia, o pai de Beca chega com uma missão para recuperar um cubo de luz misterioso, nessa missão eles se unem a Rato, um jovem traiçoeiro que também trabalha no ramo. Depois da missão, em que acabam perdendo o cubo, eles descobrem que na verdade o cubo de luz pode conter informações sobre a origem da névoa e as criaturas que a habitam, os Sombras. Como eles perderam o Cubo de Luz, Emir lhes passa uma missão ainda mais perigosa, que pode levar a mais descobertas sobre a Névoa contagiosa, que mudou suas vidas.

Essa explicação da sinopse foi um pouco longa e ao mesmo tempo ainda tem muito mais sobre o livro que não contei, mas quero logo aproveitar para parabenizar a Roberta por criar esse universo tão complexo, cheio de detalhes e coisas que se conectam o tempo todo ❤ Agora sim, que comece a resenha:

O livro começa com uma transmissão feita de Torre, em que o Presidente Emir explica toda a história de como surgiram os megaedificios, que todos deveriam ser gratos ao pai dele por ter vindo com essa ideia para ajudar a todos a sobreviver. Esse discurso de que a Torre é a salvação da humanidade e que o pai dele era o melhor homem do mundo e que foi a melhor coisa que aconteceu a eles é uma tentativa da autora de fazer uma crítica de como os meios de comunicação como essa, podem servir como forma de propaganda do governo para manter o povo leal e domado, apesar de que nem todos vivem com o mesmo conforme e tem condições de ao menos se alimentar 3 vezes ao dia e roupas limpas e essas coisas. Eu particularmente, achei que foi pouco explorado, essa reflexão crítica está muito na minha cabeça, não existem cenas em que por exemplo no bar um cidadão comum começa a brigar com outro por causa dessa desigualdade social, também houveram poucos personagens mencionando ou reproduzindo esse fala de gratidão incondicional ao Emir. Acho que poderia haver mais e como um bom romance que muitas vezes é descrito como distopia, eu esperava ver mais insatisfação do povo, das pessoas comuns, mesmo que levemente, senti falta disso.

Outra coisa, foi que a primeira transmissão contando um pouco a história da névoa pra mim foi desnecessária, eu preferiria saber a história da névoa por meio do diálogo dos personagens, não por um meio tão mecânico assim, perdemos um diálogo que poderia até já conter algum ponto de vista diferente do que aconteceu e discussões sobre isso, acho que enriqueceria mais esse debate. Na verdade, eu esperava outra coisa dessas transmissões, esperava e preferiria que fosse mais parecido com a história em quadrinho True Lives of the Fabulous Killjoys (Gerard Way, Shaun Simon, Becky Cloonan), em que a comunicação é utilizada mais como uma atualização para os sobreviventes sobre o que está acontecendo, quem está no hospital ou precisando de ajuda, ou que lugares devem ser evitados por terem percebido a presença de sombras, mais como um diário de sobrevivência e ainda podia incluir essa propaganda do governo no meio, sempre dizendo que eles estão abrigando os necessitados e cuidando das pessoas, mais por isso que achei essa primeira transmissão um recurso de narrativa desnecessário. Mas as outras transmissões seguem mais essa perspectiva que eu tava esperando então 😀

Antes de começar a falar dos personagens, tenho mais uma observação a fazer sobre o roteiro da história: tem algumas situações que acontecem que não sinto que exista uma verdadeira ameaça, perigo ou que eu apenas consigo ver uma saída mais fácil para o conflito Por exemplo, tem uma cena em que a Beca consegue recuperar o cubo de luz e o pai dela fica nesse impasse entre dar o cubo pro Emir ou em ficar com ele, mas na verdade, eu não acho que eles tenham muita escolha nesse assunto. Quer dizer, ele realmente irritaria a pessoa mais poderosa da cidade para ficar com uma coisa que ele nem sabe direito o que fazer com ela? Mesmo que essa coisa valha muito no mercado deles, não seria muito melhor ter o Emir como aliado do que roupas novas? Talvez eu esteja sendo leviana aqui, mas se eles são tão pró Torre ou pelo menos neutros, eles não precisam sequer pensar duas vezes antes de devolver algo tão valioso quanto o cubo pro Emir, sinceramente. Outra situação, é mais spoilery então leia o livro antes de ler isso aquieles descobrem que os sombras são seres híbridos de humanos com os outros monstros que moram no Véu, a irmã do Rato foi capturada e é mantida pra fins de procriação no “quartel general” das criaturas. Ela diz que prefere morrer a ter essa criança-sombra e pede que rato a mate. Francamente, eu me pergunto, ela não podia simplesmente abortar como uma pessoa normal? Como em Prometheus? Parece que o aborto não é uma opção e acho que o debate poderia ser mais rico nesse sentido.

E, cara, tem mais um coisinha sobre o roteiro, que pode até ser só eu sendo chata. Mas a Beca vai negociar com o Emir pra conseguir remédios para um grupo de pessoas que vivem fora da Zona da Torre. É um grupo que se recusa a ser liderado por eles por não acreditar em sua maneira de governar, visto que o líder deles, o Falcão, teve um desacordo com o pai de Emir antes, e assim, vivem dos negócios que fazem com gente como Beca e sua família. Quando a menina vê a lista de objetos que esse grupo precisa ela fica surpresa de ver tantos remédios e tal, mas tudo bem, né, ela vai até o Emir e ele diz que “só poderá dar a metade pra esse pessoal, só porque ele é bonzinho” (tipo isso, to parafraseando legal rs). Quando ela e o pai vão dar a notícia pra eles, descobrem que os remédios eram pra curar uma mãe e uma criança recém nascida que estão doentes e que a quantidade de remédios que a Beca conseguiu só dá para uma pessoa, ou seja, eles têm que escolher entre a mãe e a criança. Quer dizer que no início a Beca tava falando “nossa, quanto remédio, o que eles querem? Abrir uma farmácia?” E agora, o remédio não dá nem pra 2 pessoas… Pode dizer, sou só eu sendo chata etc, mas achei incoerente.

OK, agora a parte boa, os personagens ❤ Olha, eu amei todos os personagens, estão todos bem motivados, eles sabem quem são e o que estão fazendo lá. A Beca monta um time incrível pra participar de uma missão com ela, que é inacreditável, é impossível não se envolver e não simpatizar com aquelas pessoas. A Bug, que é um jovem que tem a habilidade especial de teletransporte (sim, as pessoas que foram afetadas pela névoa e não morreram podem ter algumas habilidades especiais, como serem corredores, saltadores ou teletransporte), é muito carismática e imprevisível, a lealdade que ela estabelece com a nossa heroína é genuína, e tem uma cena que a gente percebe que elas sentem uma admiração uma pela outra, elas poderiam ser tipo muito amigas  que tudo der certo.

O Rato é um personagem que no início você pensa “é só mais um babaca”, mas não, não é assim. Ele nos surpreende de uma forma inacreditável, parece que quanto mais você o conhece, mais você entende porque ele faz o que faz e quem ele é de verdade, quais os verdadeiros interesses dele e o que realmente importa pra ele. Eu o amei como um personagem e parece que ele no começo e ele no final são tipo duas pessoas diferentes, e eu amo muito isso ❤

E assim, não vou mentir para vocês: pessoas morrem. Parece que tem essa nova febre no mundo literário em que se você não mata personagens, o livro não é bom. Eu discordo. Por isso, quando quero mortes, quero elas bem justificadas, do tipo “ei, não tinha outra saída!” e tal. E realmente, a morte de algumas pessoas foi bem justa e honesta e eu pensei “ah, não, vou sentir falta desse personagem!” e “ah, mas esse aqui era tão legal, tinha tanto futuro”. Apesar de eu achar que alguns personagens morreram em vão, sim, a autora não deu brechas para outras saídas, parece que ela os criou para morrer mesmo rs, então fica aqui um Rest In Peace pra eles, esses lindos 😦

Resumindo, eu gostei muito do livro. E de novo, que universo! Não sei quanto tempo ela levou pra escrever todo o livro e pensar em todos esses detalhes, mas tá de parabéns! Eu espero mais revolta e mais “distopia” nos próximos livros da série, quero debates mais interessantes e mais revolta. Pelo visto a Beca já tá começando a escolher um lado nessa história e quero ver de que forma ela vai se posicionar 🙂

Só tenho aquelas questões com o roteiro, porque acho que precisa mais consistência e mais perigo real, como as cenas com os sombras que eu achei fantásticas e, sim, perigosas e obviamente letais! Acho que a Roberta manda muito bem quando o perigo são monstros e ainda não descobriu muito bem como ela vai fazer as decisões de um líder politico parecer uma real ameça aos personagens. Só uma observação: no finalzinho do livro ela quase chega ao ponto que eu to esperando! Fiquei ansiosa, quero ver mais disso no próximo!

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